Entre Peniche e as Berlengas passaram mais de 300 mil aves em quatro meses

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O céu é de um azul intenso e o sol, baixo, a Leste, ilumina como um foco um mar invulgarmente calmo na costa de Peniche, com as Berlengas em frente. A cor branca do farol sobressai no meio de tanto azul. “Vemos as pessoas na ilha”, conta Helder Cardoso, ornitólogo, mostrando o telescópio que aponta para Oeste.

CARLOS CIPRIANO

 

O céu é de um azul intenso e o sol, baixo, a Leste, ilumina como um foco um mar invulgarmente calmo na costa de Peniche, com as Berlengas em frente. A cor branca do farol sobressai no meio de tanto azul. “Vemos as pessoas na ilha”, conta Helder Cardoso, ornitólogo, mostrando o telescópio que aponta para Oeste.

 

Mas o objectivo não é ver gente, mas sim aves. O projecto Peniche Seabird Count junta especialistas da Suécia, do Reino Unido, Luxemburgo, Suíça e Portugal para fazer o recenseamento das aves migratórias que nesta altura do ano demandam das costas de Inglaterra, Irlanda, Escandinávia, Gronelândia, e até da tundra russa, para paragens mais quentes do Brasil, costa africana e até do Sul da África do Sul.

No fim-de-semana passado, últimos dias da contagem, foi assim. Uma manhã azul e soalheira, num típico dia do Verão de São Martinho, mas há outros em que o vento uiva, o mar endemoninha e a chuva fustiga os ornitólogos que permanecem firmes no local, quais soldados no seu posto de vigia, a contar as aves que vão passando no mar. A humidade infiltra-se no corpo, apesar das camisolas e dos impermeáveis, mas os turnos diários das 7h30 às 10h30 e das 14h30 às 17h30 têm de ser cumpridos, bem como o turno semanal de um dia inteiro, sem intervalos, que vai ajudar a calibrar os registos observados nos outros dias.

Helder Cardoso, que trabalha por conta própria como consultor em estudos de impacto, relata que foram contadas mais de 300 mil aves em quatro meses, até 15 de Novembro. E que, embora haja agora muito trabalho de análise para fazer, já há algumas surpresas e conclusões. Em primeiro lugar, o número de aves, que foi muito superior ao que esperavam. E depois, a observação de espécies com estatuto de conservação, como é o caso da pardela balear, que vive no Mediterrâneo e vem no Verão ao Golfo da Biscaia mudar de penas. A população mundial desta espécie, que está criticamente ameaçada, estima-se em 20 mil indivíduos. Em Peniche, viram-se passar 16 mil, ou seja, 70% do total.

Mas para que serve contar aves? O que ganham a ciência e as pessoas com projectos deste tipo?

“A ciência ganha conhecimento, que não havia, no domínio da migração das aves marinhas”, responde Helder Cardoso. “Até agora, só havia uma contagem anual realizada pela Sociedade Portuguesa do Estudo das Aves, na qual colaboro, mas este é o primeiro estudo sistematizado com esta dimensão e duração, e o único no Sul da Europa.”

O projecto permite, assim, constituir uma base de dados a partir da qual se poderá aferir o aumento ou a diminuição das espécies. Por outro lado, a ciência cruza-se aqui com a economia. As aves marinhas são predadoras de topo no oceano. Alimentam-se de peixes que por sua vez também se alimentam de outros peixes, pelo que o conhecimento sobre as suas migrações ajuda na gestão dos recursos piscatórios. “As aves são um óptimo barómetro sobre o que se passa dentro do mar”, diz Helder Cardoso.

E depois há ainda o turismo. O ornitólogo diz que Peniche tem condições para ser um dos maiores centros mundiais de observação de aves, pois o Cabo Carvoeiro é o segundo ponto mais ocidental da Europa. Nas suas rotas migratórias, os bandos voam sempre ao longo da costa e a maioria passa exactamente pelo corredor de dez quilómetros que medeia entre Peniche e as Berlengas.

O mercado dos birdwatchers (entusiastas pela observação de aves) não é displicente. Só em Inglaterra contam-se mais de um milhão, a somar aos inúmeros aficionados dos países nórdicos e da Europa central. Pessoas com poder de compra e que não se importam de viajar só para poder observar e fotografar aves. Mais um complemento para o cluster do mar que tem emergido em Peniche, associado ao surf, à praia, ao mergulho e à pesca.

O presidente da Câmara Municipal de Peniche, António José Correia, é, ele próprio, um apaixonado pela observação de aves e tem imagens publicadas no Instagram. Diz que este projecto – que teve o apoio da câmara municipal no alojamento dos voluntários e da Agência Regional de Promoção Turística do Centro nas viagens dos voluntários, com um investimento total de 5000 euros – é um “casamento feliz entre ciência, turismo e territórios”, associado ainda às Berlengas enquanto Reserva da Biosfera da UNESCO.

Helder Cardoso ressalva que o projecto em curso se trata de “ciência pura” e não de uma actividade recreativa dos “maluquinhos dos pássaros”. O objecto de estudo é a influência das condições atmosféricas na migração de aves marinhas. As longas séries das 300 mil aves observadas vão agora ser tratadas. Há muitas variáveis para estabelecer correlações. Em dias de vento norte ou noroeste, as aves aproximam-se muito da costa e quase é possível contá-las a olho a nu. Mas se o vento soprar do sul, este empurra-as para dentro do mar. É preciso relacionar tudo isso, as marés, o estado do tempo, bem como as informações obtidas pelos outros postos de observação no resto da Europa.

Os mais importantes são os Estaca de Bares, na Galiza, o observatório da ilha de Cape Clear (na Irlanda), o da ilha de Skokholm (Reino Unido) e os de Falsterbro e Ottensby (ambos na Suécia). E são estas estações de observação que podem dar alguns indícios sobre a origem das aves. O de Peniche é o último mais a sul, aquele onde se unificam as diversas rotas que prosseguem pelo Atlântico.

Helder Cardoso explica que há espécies de aves em que os indivíduos jovens passam algumas semanas antes dos bandos de adultos. Sim, os ornitólogos conseguem, através dos “canhões” telescópicos das máquinas fotográficas, identificar se as aves são jovens ou adultas e se são machos ou fêmeas. Aliás, um dos critérios para a escolha dos 30 voluntários que se juntaram em Peniche para este projecto era precisamente a capacidade de conhecer as espécies e identificar-lhes o sexo e a idade aproximada.

Entre as espécies mais frequentes que viram passar rumo ao sul estão os gansos-patolas (200 mil) e as cagarras (30 mil). E entre as mais raras encontram-se três fulmares (uma espécie frequente nas águas do Norte da Europa mas muito pouco comum na costa portuguesa) e um rabo-de-palha (um único indivíduo) que costuma migrar para as Caraíbas. Este último foi o segundo registo observado em Portugal. Uma outra ave que também se avistou pela segunda vez em Portugal foi a andorinha-do-mar. Mas há também um primeiro registo para figurar nos anais – um airo-de-asa-branca, que até à data nunca tinha sido observado na costa portuguesa.

O resultado deste trabalho vai dar origem a vários artigos que serão publicados em revistas científicas, mas também em revistas ligadas ao turismo, nas quais se divulgará o potencial do cabo Carvoeiro para a prática da observação de aves.

Ciente desse mercado, a Câmara Municipal de Peniche cedeu o alojamento aos voluntários que participam no projecto. E a marca alemã Lecia Optics emprestou os dois telescópios que foram usados na observação. A chancela académica é dada pela Universidade de Kristianstad, na Suécia, que é um dos promotores do projecto.

Aliás, tudo isto começou de maneira muito informal quando em 2012 Helder Cardoso conheceu Erik Hirshfeld e Johan Elmberg, dois suecos que vinham a um congresso de ornitologia ao Algarve, mas decidiram vir mais cedo para observar aves em Peniche. Alguém lhes tinha dito que o local era ideal para essa prática. Foi a partir deste encontro entre Erik Hirshfeld (ornitólogo e proprietário de uma editora de livros sobre a natureza), Johan Elmberg (professor de zoologia na Universidade de Kristianstad) e Helder Cardoso que surgiu a ideia de avançarem para um estudo exaustivo, que viria a concretizar-se três anos depois.

Helder Cardoso diz que há condições para a sua prossecução. Até porque o período migratório das aves decorre até Dezembro e é sua intenção que no próximo ano a duração do Peniche Seabird Count abranja mais meses.

O desafio parece ganho porque o presidente da câmara também é o primeiro a garantir que haverá apoios para 2016. Ele próprio, enquanto homem ligado ao mar, reconhece que há aves que, por viverem mais a sul durante o Verão, só mais tarde iniciam a sua migração para África. É o caso das tordas mergulhadoras e dos airinhos, que só a partir de agora serão mais observáveis.

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